Quem é a advogada ligada a Gorete Pereira e presa em operação da PF por fraudes ao INSS
PF mira deputada e associação do Ceará em nova fase da Operação Sem Desconto A advogada cearense Cecília Rodrigues Mota, ex-presidente da Associação dos...
PF mira deputada e associação do Ceará em nova fase da Operação Sem Desconto A advogada cearense Cecília Rodrigues Mota, ex-presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e da Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB), foi presa nesta terça-feira (17) durante a Operação Indébito — um desdobramento da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema nacional de desvios não autorizados em aposentadorias e pensões de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A deputada federal Gorete Pereira (MDB-CE) também está entre os alvos da operação. Ela passou a ser monitorada com tornozeleira eletrônica, segundo informações obtidas pela TV Globo. Também durante a operação, o empresário Natjo de Lima Pinheiro foi preso em Fortaleza. Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Em nota enviada por meio de assessoria, Gorete Pereira disse que "não praticou qualquer ato ilícito e que as informações divulgadas não refletem a realidade dos fatos" (confira a nota na íntegra abaixo). A defesa de Natjo Pinheiro, representada pelo advogado Bruno Queiroz, afirmou que a prisão preventiva contra o cliente foi uma "medida desnecessária e desproporcional" e que "ingressará com os instrumentos jurídicos cabíveis para revogação da prisão preventiva" (confira a nota na íntegra abaixo). A Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Ceará, disse por meio de nota que está acompanhando todos os fatos para garantir a legalidade da prisão da advogada Cecília Rodrigues Mota e "que a acusada tenha assegurado o direito à ampla defesa e ao contraditório, bem como à sala de estado maior" (confira a nota na íntegra abaixo). O g1 procurou a defesa dos outros investigados, mas não obteve respostas. A reportagem será atualizada se houver manifestação. Cecília Rodrigues Mota, em depoimento à CPMI do INSS. Jefferson Rudy/Agência Senado LEIA TAMBÉM: PF mira deputada e associação do Ceará em nova fase da Operação Sem Desconto Saiba quem é a deputada federal Gorete Pereira (MDB-CE), alvo da PF em operação Cecília Rodrigues Mota já era investigada por suspeita de fraude ao INSS e chegou a depor em 2025 sobre o caso. Conforme apuração do g1, as entidades presididas pela advogada ofereciam pagamento de propina a servidores do INSS para obter dados de beneficiários e criavam associações de fachada, muitas vezes presididas por idosos, pessoas de baixa renda ou aposentados por incapacidade. As duas associações em que Cecília atuava chegaram a funcionar ao mesmo tempo em Fortaleza, por mais de quatro anos. Desde abril de 2025, no entanto, a sede da Associação de Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) foi fechada — três dias após a deflagração da Operação Sem Desconto. Funcionários foram dispensados. Na época, o g1 foi ao local e comprovou que o escritório foi fechado. A Aapen ocupava toda a cobertura de um edifício no bairro Aldeota, na capital cearense. Veja como era a sede da Aapen: Fotos do escritório da AAPEN, em Fortaleza, antes do fechamento. Reprodução Após a primeira operação, o escritório ficou assim: Sede da AAPPEN ficou vazia após operação da Polícia Federal. Leonardo Igor/g1 Ligação entre Gorete e Cecília A ligação entre Gorete e Cecília seria por meio da associação Aapen. A deputada Gorete Pereira teria ligação com o esquema da associação presidida por Cecília, para os descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas. Segundo as investigações, a deputada teria participado ativamente das fraudes e recebeu amplamente recursos originados nos desvios. Ela também teria aberto empresas em nomes de laranjas para facilitar o esquema criminoso. Entenda como funcionava esquema de fraude do INSS comandado por advogada cearense e deputada federal. Divulgação e Agência Senado A decisão da PF, ao qual o g1 teve acesso, mostra que a deputada federal Gorete "utilizava influência política para viabilizar acordos com o INSS e manter contato direto com autoridades administrativas, bem como pressionava servidores públicos para acelerar processos". O nome da parlamentar aparece em tabela de pagamento de propina enviada por mensagem de Natjo a Cecília, e ao lado do nome dela aparece a quantia de R$ 780.433,50. "O que chama atenção no caso específico da deputada federal Maria Gorete é que, além dela ser frequentemente mencionada em mensagens de Whatsapp pelos demais envolvidos na prática criminosa e das movimentações suspeitas em sua conta, ela lidava diretamente com os investigados no esquema de descontos fraudulentos do INSS, ajustava repasses de valores obtidos ilicitamente com o auxílio de sua sobrinha e fazia, até mesmo, esses acertos diretamente com os investigado", descreve o processo. Relação com Natjo Segundo relatório da PF divulgado pela Comissão Mista Parlamenta de Inquérito (PCMI) do INSS, "o empresário Natjo de Lima Pinheiro foi beneficiário de aproximadamente R$ 400 mil em múltiplas operações advindas das empresas de Cecilia Rodrigues Mota, uma das operadoras do esquema fraudulento, investigada pela PF". A informação consta no requerimento de depoimento apresentado pela CPMI para convocação do empresário, em agosto do ano passado. Após a operação desta terça (17), além de Gorete precisar ser monitorada, os investigados não devem manter contato entre eles, segundo a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Conforme a Polícia Federal, cada membro dessa "organização criminosa", como a PF chama a relação entre os suspeitos, tinha uma função específica, sendo: Cecília Rodrigues Mota: uma das articuladoras centrais da organização criminosa, 'responsável por conferir aparência de legalidade às fraudes', coordenar operações financeiras ilícitas e intermediar relações com agentes públicos. "Exercia funções simultâneas de coordenação operacional, intermediação institucional e gestão financeira da organização criminosa". Ainda de acordo com a PF, Cecília atuava como elemento de ligação entre os membros da organização, agentes públicos e entidades associativas. Natjo Pinheiro: empresário apontado como líder e administrador financeiro da organização criminosa, responsável pela gestão das operações financeiras, definição de estratégias e pagamento sistemático de propinas. Segundo a investigação, exercia comando decisório sobre as operações ilícitas e coordenava diversos agentes com divisão de tarefas, controlava expansão das associações fraudulentas e supervisionava resultados financeiros do esquema. Gorete Pereira: a deputada emerge como "integrante relevante do grupo criminoso", com atuação na articulação política e operacional das associações fraudulentas. Segundo a Polícia Federal, ela controlava entidade utilizada para expansão dos descontos indevidos e mantinha interlocução com autoridades e servidores públicos. "A parlamentar também utilizava sua influência política para viabilizar acordos com o INSS e manter contato direto com autoridades administrativas, bem como pressionava servidores públicos para acelerar processos", descreve a decisão judicial do STF. O que dizem as defesas Veja a manifestação das defesas dos investigados: Natjo Pinheiro "O advogado Bruno Queiroz responsável pela defesa de Natjo Pinheiro considera a prisão preventiva decretada medida desnecessária e desproporcional. Desde abril de 2025, o investigado já havia sido alvo de busca e apreensão e bloqueio judicial de bens, medidas que se mostraram plenamente satisfatórias. Os descontos investigados encontram-se paralisados, inexistindo risco de continuidade, e o próprio cumprimento do mandado em sua residência afasta qualquer alegação de risco de fuga. A defesa ingressará com os instrumentos jurídicos cabíveis para revogação da prisão preventiva". Gorete Pereira "A deputada federal Gorete Pereira reitera que não praticou qualquer ato ilícito e que as informações divulgadas não refletem a realidade dos fatos. Sua trajetória pública de mais de 40 anos sempre foi pautada pela integridade. A parlamentar informa que sua defesa já analisa o teor da decisão. O advogado Dr. Waldir Xavier se manifestará oportunamente após análise detalhada do caso. Confiante no devido processo legal, a deputada reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência". Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Ceará, sobre prisão de Cecília Rodrigues Mota "Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Ceará, através da diretoria de prerrogativas, do Centro de Apoio ao Advogado e do Tribunal de Ética e Disciplina (TED), está acompanhando todos os fatos para garantir a legalidade da prisão e que a acusada tenha assegurado o direito à ampla defesa e ao contraditório, bem como à sala de estado maior. Ressaltamos que, caso seja confirmada a participação da advogada no crime, informamos que será aberto um procedimento interno disciplinar, além de outras providências. Por força da Lei nº 8.906/94 (Estatuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados do Brasil), no §2º do art. 72º, o andamento dos processos disciplinares no Tribunal de Ética e Disciplina (TED) é sigiloso, só tendo acesso às suas informações as partes, seus defensores e a autoridade judiciária competente. A OAB Ceará reafirma seu compromisso com a ética, a legalidade e a defesa da sociedade". Depoimento à CPMI do INSS Em novembro do ano passado, Cecília Rodrigues Mota prestou depoimento à CPI do INSS. Na oitiva, ela admitiu conhecer parte das pessoas citadas nas investigações da Operação Sem Desconto. Também reconheceu ser proprietária de várias empresas suspeitas de lavagem de dinheiro e confirmou ter movimentado milhões de reais, mas negou que esses recursos tenham origem ilícita. Cecília Rodrigues Mota fez 33 viagens em menos de um ano, inclusive para destinos internacionais. Entre as cidades visitadas no exterior estão Dubai, Paris e Lisboa. Sobre as viagens, Cecília disse: "Cumpre esclarecer que todas foram integralmente realizadas a trabalho. À época, eu mantinha estrutura profissional em diferentes capitais, escritório próprio em Brasília, sede administrativa em Fortaleza, unidade em São Paulo e co-work em Salvador. Trata-se de uma operação robusta, jamais compatível com a ideia de escritório de fachada". No depoimento, a advogada ainda comentou que estava sendo colocada no centro de especulações e de conclusões precipitadas, sendo transformada em "bode expiatório". Cecília Mota compareceu à CPMI amparada por um habeas corpus concedido pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que lhe garantiu o direito de permanecer em silêncio nas perguntas que poderiam incriminá-la. Ela usou desse instrumento quando o relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), a questionou sobre a suposta prática de lavagem de dinheiro. "A narrativa que circula na imprensa não corresponde à realidade", declarou à época. Operação contra fraudes no INSS A Polícia Federal e a Controladoria Geral da União (CGU) realizam, nesta terça-feira (17), a Operação Indébito, desdobramento da Operação Sem Desconto. Policiais federais e auditores da CGU cumprem 19 mandados de busca e apreensão, dois mandados de prisão e outras medidas cautelares diversas, no Ceará e no Distrito Federal. Foram presos: Natjo de Lima Pinheiro, empresário; Cecília Rodrigues Mota, advogada e ex-presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e da Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB). Está sendo monitorada: Gorete Pereira: deputada federal pelo MDB-CE de 74 anos, natural de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense. Antes de ingressar na vida pública partidária, Gorete atuava na área da saúde. O objetivo da nova operação é aprofundar as investigações da Operação Sem Desconto, para esclarecer a prática de diversos crimes de inserção de dados falsos em sistemas oficiais, constituição de organização criminosa, estelionato previdenciário e atos de ocultação e dilapidação patrimonial, segundo a Polícia Federal. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: